CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

20 de setembro de 2017

AFRÂNIO DE CASTRO (1931-81)


Recorte de A Crítica, 1967
O encontro do documento abaixo trouxe-me à lembrança esse artista, que conheço apenas pelos causos contados a seu respeito. Sim, também conheço alguns de seus quadros e alguns poemas esparsos. Todavia sei do trabalho que o Restauro do Palacete Provincial vem operando nas suas telas ali recolhidas.

Hoje, completam-se 36 anos do “encantamento” de Afrânio de Castro, repetindo o termo usado por outro “encantado”, Arthur Engrácio, autor do texto aqui copiado. O lembrete sobre o amigo foi postado no Jornal do Commercio (19 de setembro de 1982).

Afrânio nasceu em Janauacá (AM), em 1931, e morreu, portanto, alguns dias após festejar os 50 anos. Ocupou a Cadeira 5 do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, patronada por Alexandre von Humbolt.


CRÔNICA PARA AFRÂNIO
NO SEU 1° ANO DE ENCANTAMENTO

Arthur Engrácio

Amanhã, dia 20 de setembro, estará fazendo um ano que Afrânio Castro se encantou. Digo se encantou, para acompanhar Guimarães Rosa na sua filosofia, que dizia que as pessoas não morrem, se encantam. E eu acredito que assim aconteça, pois, não seria devido a esse encantamento que a imagem de Afrânio continua mais viva e marcante na nossa memória?

A imortalidade, a meu ver, é uma espécie de encantamento. Os que se imortalizam, não chegam também a conhecer a morte, na acepção subjetiva do termo, mas se transfiguram em outro ser, em outra entidade, como acertadamente queria o grande romancista.
La Rochefoucauld, citado por Tristão de Ataide, dizia que a morte para os escritores, é como a ausência para o amor. A ausência aumenta o verdadeiro amor, mas elimina os caprichos, como o vento atiça os incêndios e apaga as velas. Os escritores medíocres — acrescenta, por sua vez, o pensador brasileiro — morrem com a morte, qualquer que tenha sido o seu êxito em vida.

Os autênticos se imortalizam com ela. O conceito expedido pelos dois ilustres homens de letras, falando de escritores, pode ser estendido a todos os artistas, de modo geral, com a particularidade de, no caso, Afrânio Castro achar-se já incluído nessa categoria, pois que era também poeta. Em verdade, o nosso pintor maior tem o seu lugar assegurado na posteridade como o talento artístico mais puro e autêntico já surgido no Amazonas em todos os tempos.

Rebelde e impetuoso, seu comportamento como artista foi um desafio constante à vida, de cujos maus tratos ele se vingava com um desprezo mortal. Não tinha fisicamente nenhum atrativo, mas poucos como Afrânio souberam cultivar a beleza com tamanho devotamento e amor. Suas telas provam isto. De concepção profundamente realística, possui ele, não obstante um alto grau, o sentido poético, que fazia transparecer em sua obra, toda ela marcada aqui e ali daquele tom de vagueza e subjetivismo e que é mesmo a poesia em si.

Afrânio nasceu no município de Janauacá e a sua infância, como de quase toda criança do interior, decorreu pobre e humilde. Passou-a nesse clima de despreocupação e irresponsabilidade próprias dessa fase da vida — nadando, remando, pescando, armando arapucas para os passarinhos incautos, enrijecendo, em suma, os músculos e fortificando os pulmões com o ar sadio que o contato direto com a natureza oferece.

Aprendeu a ler com dificuldade, mas daí em diante se tornaria um incorrigível devorador de livros, lendo tudo o que lhe caía às mãos, como ciência, literatura, folclore, arte e, especialmente, as biografias dos grandes mestres da pintura: Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Rembrandt, Renoir, Guaguin, Toulousse Lautrec e, em particular, Van Gogh, artista com o qual Afrânio, pessoalmente, mostrava possuir muita afinidade.

Sem o espírito comercial de que são dotados alguns dos seus colegas, Afrânio Castro não enriqueceu nem sequer chegou a colocar qualquer dinheiro na poupança. Deixou, todavia, uma obra expressiva, respeitável, da mais alta significação e valor. Realizou exposições em quase todos os Estados do Brasil, inclusive Rio de Janeiro, São Paulo, Natal e Brasília, Belém etc.

Há trabalhos seus espalhados pelo país à fora, como também no exterior, notadamente na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para onde foram levados por professores daquele centro de passagem por aqui. Em Manaus suas mostras de pintura sempre alcançaram grande sucesso, tanto de crítica como de vendagem, o que bem atesta a grande popularidade e o alto mérito que possuía o artista.

Em arte, ele tinha um lema: "Nada permanece bom enquanto não se procura tornar melhor". De fato, era um insatisfeito com a sua própria obra, um inconformado, um angustiado. Cada trabalho seu era um avanço que fazia na técnica; em cada nova tela sua podia perceber-se claramente aquela preocupação, aquela ânsia de perfeição que atormenta todo artista consciente do seu papel.

Temperamental por excelência, Afrânio chegava às vezes a ter tiradas que poderíamos chamar geniais. Dele, não sei se por conta ou não do anedotário que todo grande artista cria em torno de si — como no caso de um Van Gogh, um Guaguin e, mais recentemente, um Salvador Dali —, conta-se uma série de episódios mais ou menos pitorescos, que bem revelam o caráter invulgar que possuía.

Certa feita bebia ele com uns amigos, num bar localizado à rua Saldanha Marinho, quando, já bem calibrado, verificou que não tinha mais dinheiro para continuar a rodada. Pensou um pouco e chegou à conclusão de que só havia um jeito — era ir ter com o Josafá Pires, nos Associados, o qual lhe devia uma importância cujo pagamento vinha ele protelando há algum tempo.

Pensou e já ia passar da ideia à ação quando, neste justo momento, como que caído do céu, o conhecido radialista — num terno de linho branco, impecavelmente engomado, sapatos e meias também brancos — passava do outro lado da rua rumo ao bar do Carmona. Note-se que Josafá já havia percebido o artista. Mas, talvez por ele encontrar-se naquele "estado" ou não tencionar mesmo pagá-lo, resolveu passar ao largo, de rota batida.

O pintor levantou-se, chegou até à porta e gritou pelo amigo. Este, propositadamente, fez-se de surdo e continuou no seu caminho. Afrânio deu outro grito. Imperturbavelmente, Josafá se manteve no mesmo ritmo. Afrânio chamou de novo, e ainda dessa vez não obteve resposta, pois o outro não o "ouvia" de jeito nenhum. Aí não se conteve mais: pôs as mãos em concha na boca e gritou bem alto, a plenos pulmões: "Josafá, ô Josafá! Todo de branco, hein? Mas com a alma NEGRA!!!”

Quem o via com aquele físico enorme de viking, como ele próprio se arrogava, não supunha que dentro dele se agasalhava uma alma de criança, de meninão. As caretas terríveis que fazia, os berros tonitruantes que soltava, à semelhança de Tarzan, quando bebia, não passavam de encenação. Quem não o conhecesse, nessas horas, talvez saísse correndo assombrado. Mas, era estender-lhe a mão e pedir-lhe que se acalmasse, e pronto! — o "monstro" desaparecia.

Dotado de uma inteligência ágil e muito senso de humor, Afrânio alegrava qualquer ambiente onde se encontrasse. Era um repentista da piada, que ele improvisava com muito espírito e oportunidade, provocando nos circunstantes gostosas gargalhadas.

E que dizer dos epítetos infames que criava? Arlindo Porto considerava-o o maior colocador de apelidos que conhecera. Muitos desses apelidos, aplicados em seus colegas do Clube da Madrugada, pegaram e hoje estão consagrados no mundo literário e artístico de Manaus. Eis alguns deles: Pantera Cor de Rosa, Carapanã de Biafra, Gato Jaguatirica, Bunda de Vaca, Patativa de Moscou, Camaleão Moralista, Gato Jujuba, Coronel Farofa, Bezerrinho de Ouro, Caranguejeira de Pijama, Bunda de Sanfona Gafanhoto, Lavadeira de Cacimba, Caboclo Caiapó, Anjão, Tartaruga Marciana, Onça Grávida, Turculino e outros.

Passado um ano de ausência entre nós, a figura de Afrânio em nada se alterou na nossa memória. Permanece no nosso convívio, tomando parte dos nossos papai nas noites de boemia. Com os olhos da alma continuo vendo-o, carrancudo, macrocéfalo, sempre irreverente e desabusado a xingar Deus e o mundo:


— Lepra maldita! Resto de civilização!... 

19 de setembro de 2017

CLUBE DOS OFICIAIS PMAM

Para a história do Clube dos Oficiais, que ora se intitula Associação dos Oficiais. Esta notícia foi extraída do Jornal do Commercio (15 de abril de 1982). Aqui, para melhor identificação, complementei o nome dos oficiais.




As eleições para a nova diretoria do Clube dos Oficiais da Polícia Militar do Amazonas deverão ocorrer amanhã, dia 16 de abril, sexta-feira, e é grande a movimentação em torno do pleito.

Dois candidatos concorrerão ao mais alto posto do Clube. O Tenente-coronel PM Odacy de Lima Okada, atual presidente da entidade, lutará pela sua reeleição, enquanto que a oposição, tem como candidato o Major PM Francisco (sic) Romeu Pimenta Medeiros, e sua chapa está assim organizada, conforme informou ontem a Assessoria de Imprensa da Polícia Militar:

Presidente:  Major PM Romeu Medeiros Filho;
Vice-presidente: Major PM Francisco Orleilson;
Diretor-executivo: Major PM Odorico Alfaia;
1° Secretário: Tenente PM José Alves de Lima;
1° Tesoureiro:  Tenente PM Raimundo Menezes Regis;
2º Tesoureiro:  Tenente PM Edson Paulo Ramos;
Orador: Tenente PM Jorge Levy Marques Sobreira;

No Clube, os coronéis Orleilson, Helcio,
Medeiros e Ossuosky (a partir da esq.)
* Departamento Social:
Tenente PM Alcides Costa; Tenente PM Ary Renato Oliveira; Tenente PM Mário Silva; Aspirante Oficial PM Louismar Bonates.

* Departamento Esportivo:
Tenente PM Adelson Melo dos Santos; Tenente PM Raimundo Belchior; Tenente PM J. Roberto Oliveira Araújo; Tenente PM Ruimar Moreira Lima.

* Departamento Recreativo:
Cap. PM Nazadir Sapucaia e Tenente PM José Antonio Saraiva.

* Departamento Cultural:
Tenente PM James Castelo Branco e Aspirante Oficial PM Afrânio Pereira Junior.

* Departamento de Obras e Patrimônio:
Capitão PM Raimundo Pereira Encarnação e Tenente PM Bernardo da Encarnação Neto.

* Departamento de Relações Públicas:
Tenente PM Roberto Castelo Branco e Aspirante Oficial PM Marcos Antonio Cavalcante.

* Departamento Feminino:
Tenente PM Fem Antonia Arlene e  Tenente PM Fem Sandra Regina Bulcão

* Conselho Deliberativo:

Tenente-Coronel PM José Cavalcanti Campos; Major PM Edson Nascimento Pereira; Tenente PM Geraldo Augustinho e Tenente PM Orlando de Sena Silva

Coronel Antonio Saraiva

Coronel Sapucaia

Notas deste autor

Revendo os nomes desta relação, dessa equipe de jovens oficiais, a maioria tenentes, que o então major Medeiros soube reger, gerenciar, o CO navegou e como navegou. Apenas um detalhe: a estrutura do salão de festas da atual sede foi construída nesse período. A dupla Medeiros e Alfaia, que dirigia a administração financeira da PMAM, soube aproveitar os bons tempos e ótimos ventos, como disse, para navegar.

O Clube, hoje Associação, deve ao coronel Medeiros e Alfaia ao menos uma placa, para marcar o empuxo que essa agremiação tomou, a partir dessa data. Esqueci de ressaltar que essa chapa foi a vencedora do pleito e, na direção, permaneceu por anos. 

Ainda outra análise: este grupo de jovens oficiais, hoje coronéis reformados, abrigou alguns futuros comandantes-gerais: coronéis Romeu Medeiros Filho; Francisco Orleilson Guimarães; José Antonio Saraiva; Paulo Roberto Castelo Branco; Bernardo da Encarnação Neto; James Pedrosa Castelo Branco; J. Roberto Oliveira Araújo.

Mais: José Cavalcanti Campos foi deputado estadual; Louismar Bonates, secretário de Justiça, e Afrânio Pereira Junior, prefeito de Manacapuru.

18 de setembro de 2017

LÁBREA (AM)


Igreja de Lábrea (AM)
Esta postagem saquei do extinto O Jornal (18 de abril de 1982), cuja edição dominical circulava com páginas fartamente literárias.   


À Margem de um Livro

Padre Nonato Pinheiro
(da Academia Amazonense de Letras)

Li o livro LÁBREA, de autoria do Irmão Sebastião A. Ferrarini, religioso marista, membro de uma congregação fundada pelo padre Marcelino Champagnat, em 1817. O autor versa sobre a cidade e município de Lábrea, sua situação geográfica, a exploração do rio Purus, dados históricos, homens ilustres, aspectos econômicos e recursos regionais, fauna, avifauna, ictiofauna, flora, meios de comunicação, aspecto sanitário, a presença da Igreja e da Congregação Marista. Um volume corográfico.

O próprio autor, em sua introdução, ressaltou a escassez das fontes e de tempo, circunstâncias que prejudicou a obra, que é comemorativa do centenário de Lábrea, ocorrido em 1981.

Sebastião Ferrarini

Pesquisando há 40 anos, desde 1942, quatro anos antes de minha ordenação sacerdotal (1946), sobre a presença da Igreja Católica no Amazonas, até hoje não divulguei o produto de tão jongas e pertinentes rebuscas. Uma publicação histórica envolve muita seriedade porque a história se escreve com documentos, que exigem detido exame e cotejo no que concerne à autenticidade dos mesmos, às datas etc.

A obra do Irmão Sebastião é muito interessante, mas numa segunda edição mereceria alguns melhoramentos, como mais nítidos enfoques. Algumas figuras estavam a exigir melhor relevo, com tintas mais vivas e brilhantes. Na parte concernente à fauna e a flora, a obra se valorizaria com a ilustração dos nomes científicos, como fez o autor com a castanheira (bertholletia excelsa) e a sorveira (sorbus domestica), esquecendo-se da denominação científica da seringueira (hevea brasiliensis).

Permito-me fazer ligeiras considerações sobre a presença da Igreja em Lábrea. Escreve o autor: "A assistência pastoral organizada no Purus só acontece quando D. Macedo Costa cria a Paróquia a 6 de setembro de 1878." Lamento que o autor tenha omitido a presença do referido bispo do Pará em Lábrea para instalar a Paróquia e fazer a Visita Pastoral. O arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa informa em sua notável obra Dom Macedo Costa: "A 5 de junho (1878) Dom Antônio segue para Manaus; em outubro faz a Visita Pastoral às povoações do rio Purus. Regressa em novembro." (p. 375).

O autor deu o devido relevo ao longo paroquiato do sacerdote cearense padre Francisco Leite Barbosa, distinguido com o título de monsenhor. Ele bem o mereceu. 

Entretanto, teria gostado que o Irmão Sebastião ressaltasse a figura do terceiro vigário de Lábrea, padre Manuel Monteiro Silva, amazonense nativo do município de Lábrea, no lugar Carmo. Padre Monteiro foi vigário de sua paróquia natal de 1912 a 1921, quando passou o governo da mesma ao italiano padre José Tito.

Monsenhor Manuel Monteiro da Silva foi o mais ilustre filho de Lábrea. Em Manaus, foi catedrático de Latim (defendeu tese) do antigo Ginásio Amazonense Pedro II; duas vezes vigário-capitular da Diocese; Vigário-Geral da Arquidiocese; deputado estadual; presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas, tendo assumido o governo do Estado em 1936, na ausência do governador Álvaro Maia.

Quando ele foi distinguido pela Santa Sé com o título de monsenhor, o autor destas linhas, então Chanceler do Bispado, organizou uma solenidade de homenagem ao novo Camareiro de Sua Santidade o Papa Pio XII (doze). Saudou-o o eloquente salesiano padre Estélio D’Alison. Dom José Alvarez Mácua, bispo prelado de Lábrea, compareceu e usou da palavra, dirigindo-se ao homenageado como "o mais ilustre filho de sua Prelazia."

Irmão Sebastião informa que o padre Francisco Leite Barbosa foi ordenado a 13 de junho de 1876 (p.158). Dom José Alvarez Mácua diz o mesmo em sua obra Efemérides da Prelazia de Lábrea, à p.17. Dom Alberto Ramos, em sua Cronologia Eclesiástica da Amazônia concorda com o dia e o ano, mas dá o mês de fevereiro (e não o de junho) como o da ordenação: "1876 — 13 de fevereiro - Dom Antônio ordena os padres Antônio Nicolau Tolentino, Antônio Valente Flexa, Antônio da Silveira Franca, Domiciano Perdigão Cardoso e Francisco Leite Barbosa (p.50).

Recorte do periódico

A figura de monsenhor Inácio Martins ficou nítida no aspecto missionário, mas um tanto esmaecida no plano intelectual. Foi um primoroso homem de letras, poeta inspirado e orador de grandes remígios. Também gostaria de ver bem colorida a imagem de Dom José em tão longo ministério pastoral e a parte saliente que teve na ida dos Irmãos Maristas para sua Prelazia (Carta Pastoral de Despedida, p.8).


Que me perdoe o ilustre Irmão Sebastião A. Ferrarini! Estas notas foram sugeridas pela seriedade de sua obra, publicada sob os auspícios do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Com algumas restrições, considero a obra digna de leitura e apreço.